ALTERAÇÃO DO ENDEREÇO

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

-" O discurso de um ladrão 500 anos depois "

O jornalista César Príncipe, num excelente artigo, corporiza o inglês Francis Drake, ladrão dos mares e de cidades costeiras, para explicar as causas dos recentes motins e roubos em Inglaterra.
De facto, ninguém mais apropriado para analisar as causas dos roubos do que um pirata especialista em  assassínios, violações e roubos, credenciado pelo governo do seu país, e para acentuar a inevitabilidade de um país que institucionalizou o roubo sentir o efeito disso no seu próprio seio.

Antes da análise do pirata Francis Drake, um vídeo com os acontecimentos a que ele se refere.


video

Discurso de Francis Drake
por César Príncipe [*]

Sou Francis Drake. Nasci robusto e prometedor no ano de 1540, em Devon. Faleci de gloriosa disenteria em 1596, no Panamá. Fui vice-almirante de Isabel I, que me concedeu Carta de Corso e me alçou à Dignidade de Cavaleiro. Sou Sir Francis Drake. Assaltei, saqueei, incendiei, matei e violei, com gula predatória e talante diplomático, desde a Europa às Américas, da África à Ásia. Não poupei Portugal, o mais velho aliado: investi da Metrópole às Colónias. Por esse mundo de realezas e tribos, aterrorizei cidades, vilas e aldeias. Vasculhei e pilhei barcos e portos, palácios e templos, celeiros e plantações. Dediquei-me ao nobilitante tráfico de escravos. Enchi a Coroa de tesouros e ornei a cabeça de louros. Sou um dos nomes fundadores e inspiradores do Império Britânico, um referente da Nova Globalização: o corso de porta-avião e assalto humanitário. Vim, hoje, ao Palácio de Westminster, ao Parlamento, para enaltecer a epopeia dos mares e esclarecer a crise que grassa em terra. É idêntico o desígnio que nos move. Mudou a estilística. Antes exibia-se a Carta de Corso. Agora brande-se a Carta dos Direitos Humanos sempre que se aborda um petroleiro ou um fundo soberano. Há que atender, contudo, à presente circunstância: somos uma colónia de uma antiga colónia. Também mudou a rainha. Reina outra Isabel, a II. God Save the Queen. Sou Francis Drake. Não pedi a palavra ao speaker, ao presidente, a John Bercow. Até onde sabemos, eu, a rainha e o povo britânico, a Excelentíssima e Gentil Esposa do Presidente, Sally Bercow, também não pediu autorização para irromper nua (velada por um lençol) à janela do apartamento (pago pelos cidadãos), defronte do Palácio de Westminster, deixando-se entrever a um tablóide londrino e à comunidade internacional. [1] Também anunciou a firme disposição de participar no Celebrity Big Brother. Não será Francis Drake, uma legenda eterna da Grã-Bretanha, a submeter-se ao regimento da Câmara dos Comuns.

Senhores Políticos, Senhores Polícias, Senhores Juízes, Senhores Jornalistas, súbditos de Isabel,

Ocorreram, em diversas cidades reais, actos que os negociantes da comunicação e as autoridades governamentais e policiais prontamente qualificaram como tumultos, distúrbios, delitos, actos criminosos, vandalismo, gangsterismo. Ora, o que se passou constitui, para além do óbvio, uma bênção dos céus. Poucas sociedades se poderão orgulhar de ter uma juventude tão brava e com tanta iniciativa, crianças tão audazes e auto-determinadas. Não desperdicemos esta geração combatente. A estranheza e o sobressalto apenas se explicam por desconhecimento da nossa conduta secular e pelo facto de estarmos habituados a manter a paz em casa e a guerra no estrangeiro. De supetão, legiões de ingleses saltaram para as ruas e, durante alguns dias, paralisaram o braço da Lei porque se sentiram iraquianos, afegãos, somalis, líbios. V. Excias. não compreendem o que custa ser iraquiano em Londres, afegão em Manchester, somali em Bristol, líbio em Salford. Eu, Francis Drake, entendo todos os roubos, todos os incêndios, todos os desacatos dos angry young men / das angry young women. [2] Nada de relevante relativamente às pilhagens, destruições e massacres que, dentro das melhores tradições e basilares princípios, levamos a cabo pela esfera terráquea. Não passam de danos colaterais face aos saques e aos escombros que provocamos no Mapa das Matérias-Primas e nos Pontos de Mira Estratégicos. Neste preciso instante. No momento da rebelião caseira. Mas como reagimos entre paredes? Prendemos infantes de 11 anos. Condenamos a quatro anos meros incitadores. Duplicamos as penas. Abarrotamos os cárceres de incriminados e suspeitos. Proclamamos que os desordeiros jamais ocuparão a Praça de Trasfalgar-Tahrir nem pisarão os corredores do Ceptro e os redutos da Libra.

Excelências,

Eles, os filhos da Albion e da Commonwealth, limitam-se a seguir, com espontaneidade, o profissionalismo de Tony Blair e David Cameron. Respondem com a mesma linguagem mas com pobreza de meios. Com uma desculpa. Somente aspiram a uma modesta parte do PIB planetário. Quem sabe: apenas ambicionarão de forma injusta e arbitrária o que é seu, o que é justo e lógico. Porventura um emprego. Talvez uma morada. Por certo boa saúde fora das clínicas de sangue azul e boa educação fora de Oxford e Cambridge. Dêem-lhes as armas de Terra, Mar e Ar e sereis vós os julgados. Não se iludam os estadistas do provisório e os cientistas do acessório: a sublevação não se deve ao BlackBerry Messenger nem ao Twitter. Já no séc. XI havia tumultos em Londres e se ergueu a Torre que foi Casa Real e Centro de Execuções. Sou Francis Drake. Ouçam-me. A ira dos amotinados não se contém com canhões de água, bombas de gás, balas de borracha, gradeamentos e bastões, estigmas de manchettes. Não chegam 16 mil agentes da Scotland Yard em Londres nem tropas de prevenção em Glasgow. A intifada inglesa revelou a fúria acumulada, o fracasso das instituições, a perversão do modelo. Resolver-se-á a crise económico-financeira, a crise social, educacional e familiar com a reposição dos contentores de lixo, dos vidros das montras, o reabastecimento das lojas, uma série de purgas de bairro, uma campanha de placards com os rostos dos suspeitos? Sou Francis Drake. Conheço as águas. A tormenta apaziguou. É assim no Atlântico, no Índico, no Pacífico. É assim até à próxima.

Senhores Deputados, Senhoras Deputadas,

Por enquanto, podereis dormir sem sedativos e sem gorilas à cabeceira. A ordem regressou aos televisores. Repousai nos privilégios de casta e de castelo. Tranquilizai a City , o lugar da Terra onde se concentra mais dinheiro sujo, cofre-forte da guerra, da especulação, da corrupção, da escravidão, do tráfico. God Save the Queen . A NATO e as Monarquias do Golfo não armaram os rebeldes. Os insurrectos não assaltaram a Bastilha do Tamisa, a Tower, onde esteve clausurada Isabel, a I, antes de reinar 45 anos e me confiar missões de mar alto e investidas de litoral. Espero que Isabel II, reinante há 58 anos, não passe pela descortesia de assistir das varandas de Buckingham ao clamor das turbas, ao avanço dos operários- chips , dos estudantes- chats , dos polícias humilhados pelos governantes, dos loiros tornados negros, da embaixadora dos Jogos Olímpicos denunciada pela mãe. É que os brigadistas de Tottenham desconfiam de Cameron, embora este, em jovem, se divertisse a escacar lojas e restaurantes ao lado de Boris Johnson, colega, actual mayor . Cameron só admite que se estilhacem vitrinas e se lese o património por graça, por praxe, como exuberância de pedigree. Jamais por desespero, protesto, repúdio, rompimento dos limites psico-emocionais, alarme de sobrevivência. Boris, esse que respeitabilidade colherá no seio dos jovens irritados? Dirá aos ingleses em polvorosa o que disse aos gregos em transe: a melhor ajuda é deixá-los sozinhos. [2] Que esperança tendes para dar a tanta descrença?

Meritíssimos Juízes,

Os governantes entregam os vândalos ao vosso cuidado, exortando as instâncias de fim de linha a ditar sentenças céleres, implacáveis, memoráveis, que não se enredem em jurisprudências. Até concordaria se não fosse levado a algumas reservas, no sentido de poupar o ido Império à desmoralização geral ou ao perigoso culto da anti-violência. É indispensável o mínimo de moral para impor o máximo de imoralidade. Que vemos nos casos em que o Estado e os seus protegidos cometem crimes de alta parada? A Justiça é lenta, vacilante, persuadida a conter-se. Recordemos David Kelly, biólogo, ligado ao Ministério da Defesa, perito em desarmamento da ONU. Pôs em causa o fabrico e o armazenamento de armas de destruição em massa por parte do Iraque. Foi ostracizado e vítima de aparente suicídio . Que tem feito a Justiça para apurar esta suposta interrupção voluntária da existência? Norman Baker, deputado sem temor, empreendeu uma investigação por conta própria e concluiu: Um suicídio pode ser encenado para esconder as pistas dos assassinos. Todos os indícios me levam a crer que foi isso que aconteceu no caso do Dr. Kelly. [3] E como actuou Tony Blair, uma das criaturas mais sinistras da última década, no caso da super-corrupção, envolvendo a BAE Systems, a maior empresa europeia de equipamentos militares e de segurança e a família real saudita? O Serious Fraud Office/SFO foi aconselhado a congelar a investigação em 2006 e a Câmara dos Lordes, Corte Suprema da Justiça, desautorizou vários tribunais que se pronunciaram pelo andamento do processo. Havia biliões em jogo. Um ano depois, o rei saudita desembarcou em Londres com a comitiva, acomodada em seis aviões e 84 limusinas, deslocou-se de carruagem puxada a cavalos brancos, recebeu as honras da Guarda Real, brindou com a rainha, saudado por Gordon Brown e David Cameron.

Meritíssimos,

A Corte Suprema foi célere a abortar a Justiça. Foi implacável para com a Verdade. Foi memorável a rever a História dos Gangues Aristocráticos.

Só mais um reparo à morosidade da Justiça no que toca aos Grandes Burocratas e aos Grandes Magnatas: há semanas fomos notificados de outro aparente suicídio. [4] Desta vez, coube morrer misteriosamente a Sean Hoare, jornalista da News Corporation, de Rubert Murdock, que havia denunciado a prática de escutas ilegais e subornos policiais, que arrastaram o News of the World para o encerramento. David Cameron sempre manteve íntimas relações com quadros deste universo. Cameron não instiga os magistrados a redobrar diligências e a atropelar jurisprudências?

Senhores Jornalistas e Senhores Comentadores,

Reservo o final da oração aos chiens de garde do sistema. Sem dúvida que os bandos juvenis não foram cavalheiros de coco nem cavaleiros de penacho. Excederam-se. Provocaram danos no espaço cívico e na fazenda privada. São reprováveis tais desmandos. Mas não serão reprováveis os desmandos nacionais e internacionais de Blair, Cameron e Murdock? Que força vos impede de chamar criminosos e vândalos a estas e outras entidades? O que vos solta a língua e a pen para diabolizar os gangues periféricos? A Polícia abateu um cidadão. As arruaças causaram quatro mortes. Breivik, o terrorista norueguês, averbou 77 vítimas (69 mortais). Muitos de vós tratam o carrasco neo-nazi com complacência e prudência: assassino fotogénico, lobo solitário, autor confesso do ataque, fanático, islamofóbico, perturbado mental. Muitos de vós, demasiados, quase todos, tratam Kadhafi e Assad como ditadores e Mubarak como ex-presidente e ex-faraó e Abbdullah ibn Abdul Aziz Al Saud como Sua Majestade e guardião de dois lugares sagrados. [5]

A Ti, Isabel I, já não a bordo do Golden Hinal e do Elizabeth, que capitaneei ao Teu Serviço, mas das bancadas verdes de Isabel II, renovo o juramento de lealdade e frontalidade. Sei que não eras mulher de um só homem, que, por amor da grandeza anglo-saxónica, expuseste os frutos do Éden, não à janela como a esposa do speaker, mas no sigiloso e tumultuoso leito, conciliando as prazeres de uma estadia com os deveres de Estado. No entanto, viveste em aparente suicídio da volúpia, fabricando uma imagem de rainha santa, blindada por tecidos preciosos, ajaezada de rendas e cintilações. Os povos apreciam devassos com resplendor. Não descuraste sequer a pedra sepulcral:

AQUI JAZ ISABEL, QUE VIVEU E MORREU VIRGEM.

Saberás, pela própria experiência, que a Tua auréola de castidade serviu para atenuar a carga dos meus deboches e estupros e a sobrecarga dos veneráveis cortesãos e dos bispos de Cantuária. Nunca tive pejo em identificar-me Fui pirata a sério. Reconheço, pelo menos, 70 filhos em locais com indicadores estatísticos. Mas quantos marinheiros e missionários fabriquei e abandonei em povoações exóticas, mercê de cobrições furtivas? Deus os terá numerado com o ferrete da compaixão. São milhares os meus descendentes. Alguns terão organizado as manifestações de Agosto. Alguns terão organizado a repressão. Quem sabe se David Cameron nasceu de uma rixa de alcova com uma camareira da rainha? Tenho uma virtude: continuo pirata. Desprezo quem me incensa ou branqueia. Há dias surpreendi um site de História a arrebatar-me o título de Sir do Corso e da Armada Invencível, emprestando-me uma aura de cartógrafo curioso:

DEDICOU-SE À EXPLORAÇÃO GEOGRÁFICA.

Senhores Deputados, Senhoras Deputadas,


Sois indignos de Francis Drake.
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1. Pose para o Evening Standard (05/02/2011). Sally Bercow argumentou com a necessidade de pôr na agenda o erotismo do poder. Celebrity Big Brother / programa voyeur / TVFive.
2. Angry young men / angry young women /jovens irritados. Grupo literário, que se evidenciou a partir de 1950, com o denominador comum da indignação sociocultural/cólera criativa e que incluiu, entre outros, Alan Sillitoe, Bill Hopkins, John Wain, John Osborne, John Braine, Kingsley Amis, Shelagh Delaney, Doris Lessing.
3. Declaração de Boris Johnson, The Daily Telegraph (19/06/2011).
4. Norman Baker, deputado liberal-democrata, Daily Mail (20/09/2007).
5. Sean Hoare, encontrado morto na residência (18/07/2011).
6. Meca e Medina.

[*] Escritor/Jornalista. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Fonte: esta matéria foi enviada pelo nosso amigo Canojones




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