ALTERAÇÃO DO ENDEREÇO

terça-feira, 16 de novembro de 2010

-" Para entender a Guiné-Bissau "

Carta aberta ao Snr. Fafali Koudawo, digno reitor da Universidade Colinas de Boé, em Bissau.

Prezado Senhor!
Apesar do respeito que me merece o seu cargo como responsável pela formação de muitos jovens guineenses e por o considerar de enorme importância e, ainda, por respeito pela Historiologia e consciente do efeito pernicioso que falsas manifestações de patriotismo podem ter na consolidação da CPLP, não ficaria de bem com a minha consciência se não contestasse algumas afirmações que faz na entrevista que a seguir transcrevo e que o entrevistador teve a infelicidade de classificar como “ uma aula de história “.

Entrevista concedida ao autor do blogue “Diário da África”
em Outubro de 2009, pelo Senhor Fafali Koudawo, natural do Togo e radicado há vários anos na Guiné-Bissau, professor, jornalista, analista político e reitor da Universidade Colinas de Boé, em Bissau.
(publicada em “Moçambique para todos” em 23 de Outubro de 2010)

“DIÁRIO DA ÁFRICA - COMO FOI A OCUPAÇÃO PORTUGUESA NA GUINÉ-BISSAU?

FAFALI KOUDAWO – A Guiné-Bissau foi um dos países descobertos pelos portugueses no início do seu périplo pelas costas da África. A Guiné foi visitada muito cedo. Até o nome Guiné é um dos nomes deixados pelos portugueses porque isso faz parte da própria história do continente africano.
Quando os portugueses começaram a dar a volta ao continente africano, todo o continente chamava-se Guiné. Guiné Superior, Guiné Inferior e há uma parte do continente que acabou por guardar o nome de Guiné. Sabemos que o nome África é de mais ao norte, da zona de Cartago, na Tunísia, de uma deusa que acabou por dar o nome de África ao continente. E toda essa costa chama-se Guiné e a implantação dos portugueses aqui foi ditada pelo tráfico dos escravos.
Mas essa implantação foi por muito tempo precária porque havia uma forte concorrência dos ingleses, dos espanhóis, dos franceses.
E as fortificações, as fortalezas que foram aqui construídas pelos portugueses mudaram várias vezes de donos, segundo as vicissitudes das guerras entre as potências européias. Isso durou do século 16 ao século 19, quando acabou o comércio triangular. Esta parte foi um pouco abandonada porque já não apresentava benefício para os portugueses.
Com o início da penetração colonial, o país reganhou um certo interesse para os portugueses e eles apoderaram-se das costas e penetraram no interior depois da conferência de Berlim, que lançou a grande penetração das potências europeias no interior do continente africano. A dominação portuguesa aqui na Guiné foi muito periférica porque a conquista foi lenta e a consolidação dessa conquista, tardia. As guerras de consolidação portuguesa aqui na Guiné-Bissau terminaram só nos anos 40. Então Portugal teve pouco tempo de implantação da sua influência nesta parte do continente africano.
De fato há uma contradição muito grande. A presença portuguesa aqui na Guiné durou mais de 500 anos, mas a influência real de Portugal aqui durou muito pouco tempo. Depois da consolidação da dominação administrativa e militar na Guiné, os portugueses não tiveram essa capacidade de implantar um empreendimento de valorização dos recursos. Há várias razões para isso. O país é muito hostil em termos naturais. O país tem condições duras de calor, de umidade, a influência do paludismo. Tudo isso impediu uma implantação humana de portugueses aqui. E a Guiné, dita portuguesa na altura, tornou-se apenas uma escala, uma etapa na rota em direção a países mais atraentes como Angola e Moçambique. Dada essa condição o país ficou pouco valorizado até o eclodir da luta de libertação nacional, em 1963.
Então, se
resumirmos entre a consolidação da dominação portuguesa, no início dos anos 40, e o início da luta de libertação, passaram-se apenas algumas décadas. Essas décadas não bastaram para lançar um desenvolvimento do país impulsionado pelo impedimento colonial. A luta de libertação nacional foi conduzida a partir do sul do país, com o apoio forte de um país vizinho, a Guiné Conacri. E essa luta de libertação durou 11 anos, de 1963 a 1974, e foi uma luta dura em que os portugueses tomaram consciência da impossibilidade de ganhar a guerra.
Porque trata-se aqui de um terreno muito favorável a uma guerra de guerrilha, um país com muitos rios, muitas florestas, com zonas pantanosas que não permitem uma movimentação de forças armadas, mas permitem uma facilidade de manobra para forças pequenas de guerrilha que podem fazer muitos estragos nas fileiras dos portugueses. E na altura da guerra, vir à Guiné-Bissau para um português era vir para um inferno.
Fazer a guerra em Angola era mais aceitável para um português do que vir fazer a guerra na Guiné-Bissau, que era um verdadeiro inferno. Aliás foi aqui na Guiné que, tendo tomado consciência da impossibilidade de ganhar uma guerra colonial, os oficiais portugueses decidiram fazer o golpe de estado do 25 de abril de 1974 que acabou por libertar os portugueses da ditadura.
Houve portanto essa espécie de paradoxo que foi a dura guerra de libertação na Guiné que acabou por libertar Portugal antes de libertar as colônias.
Mas antes do golpe de estado em Portugal, a Guiné-Bissau já tinha proclamado a sua independência. Porque o país já foi libertado em dois terços e essa libertação de uma larga zona onde se construiu já um estado que funcionava com instituições ditas revolucionárias na época. Isso permitiu a proclamação de um estado que foi logo reconhecido por dezenas de estados e foi proclamado. Aliás, depois da visita de uma comissão das Nações Unidas para constatar a efetividade do controle do movimento de libertação sobre a zona pretendida libertada e, depois da confirmação de que o movimento de libertação controlava realmente essa zona, o país foi proclamado independente.”


Como disse inicialmente, vou contestar algumas afirmações imprecisas que o Snr. Reitor da Univ. Colinas produziu. Vou fazê-lo sem mencionar documentação que a fundamente mas, se for necessário, a indicarei.
Por uma questão de ordem prática, utilizarei o sistema de reproduzir cada uma das suas afirmações e, em seguida, as esclarecer:
a implantação dos portugueses aqui foi ditada pelo tráfico dos escravos”.
Tem, em parte, razão quando faz essa afirmação. Mas o modo como a faz poderá levar um leitor menos avisado a pensar que foram os portugueses que iniciaram esse ignóbil comércio. Como sabe, os portugueses limitaram-se, salvo exceções, a retirar aos árabes o domínio do negócio de escravos para a Europa.

…Mas essa implantação foi por muito tempo precária porque havia uma forte concorrência dos ingleses, dos espanhóis, dos franceses.
Esta afirmação também é imprecisa pois espanhóis e franceses nunca passaram das Ilhas Canárias e os ingleses ainda não pensavam em navegar. A concorrência começou aquando da monarquia dual ibérica, durante a qual a defesa do império português foi negligenciada.
Como sabe, o império português era uma talassocracia, de aí o pouco interesse em dominar extensões continentais.

…e foi uma luta dura em que os portugueses tomaram consciência da impossibilidade de ganhar a guerra.
Sabe, perfeitamente, que uma guerra de guerrilha só pode terminar quando uma das partes ceder ou a diplomacia lhe puser fim. No caso do ultramar português, o acordo entre a União Soviética e os Estados Unidos impossibilitaram qualquer solução diplomática.

…Aliás foi aqui na Guiné que, tendo tomado consciência da impossibilidade de ganhar uma guerra colonial, os oficiais portugueses decidiram fazer o golpe de estado do 25 de abril de 1974 que acabou por libertar os portugueses da ditadura.
Também o sabe mas pode não o querer confessar, que se não fosse a infiltração nas Forças Armadas portuguesas de elementos afetos à União Soviética e o acordo acima referido, a situação teria um desfecho completamente diferente.

…onde se construiu já um estado que funcionava com instituições ditas revolucionárias na época.
Francamente ! Que fantasia tão mal elaborada !... Um estado que funcionava?
Se, ainda hoje, não funciona, como se pode afirmar que funcionava naquela época?
A ONU, na sua maioria desinteressada, e dominada pela URSS e pelos países africanos que outra posição poderia tomar ?

Espero, Senhor Reitor, que não interprete mal a posição que assumi e peço-lhe que, para bem de todos nós membros da CPLP, ensine os seus alunos a interpretarem a História de uma forma verdadeira mas desapaixonada.
Envio-lhe os meus melhores cumprimentos.

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